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Mais energia limpa para evitar apagão

07/06/2021 -Fonte: Jornal do Commercio - Economia

Se o apagão, em 2001, deixou como herança para o Brasil uma rede de termelétricas - fonte energética considerada cara e poluente - a atual crise hídrica tende a deixar como "legado" mais investimentos em fontes renováveis e mais identificadas com o futuro, como eólica, solar e biomassa. Em alta em todo o mundo, estes segmentos ganham força. Somente a energia vinda do vento, por exemplo, pode chegar a 18% do fornecimento em setembro, quando os níveis dos rios deverão estar em seu pior momento.

"O Brasil vai ampliar ainda mais a sua diversidade de fontes energéticas e isso ocorre em um momento de valorização da agenda ambiental, o que tende a beneficiar fontes como eólica, solar e biomassa", afirma Claudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil.

Embora ele acredite que o governo deveria ter agido antes na tentativa de prevenção a essa crise, principalmente com uma campanha de conscientização dos consumidores, ele vê um ambiente menos desafiador que em 2001, apesar de estarmos vivendo a pior crise hídrica da história do Brasil. Em parte, graças a segmentos como eólica e solar, que ganharam peso no País. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética, a energia eólica já representa 9,2% da geração do país, a biomassa e o biogás 9% a energia solar, outros 1,7%.

E, mesmo sem novos parques entrando em funcionamento, o peso da energia eólica no sistema elétrico nacional tende a dobrar no fim do terceiro semestre, tradicionalmente ápice da seca no centro-sul do País e consequente redução de energia hidrelétrica no sistema que representa 70% das hidrelétricas do Brasil. Com a vantagem de ter uma postura contracíclica às hidrelétricas - momentos de pouca chuva em geral são de muitos ventos -, o setor quer aproveitar a crise hidráulica, que fez o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) falar, na sexta-feira (4), pela primeira vez, em risco de racionamento de energia no País.

"A energia eólica está vivendo um momento de grande expansão, e há uma sensação da urgência do uso de novas fontes complementares à hidrelétrica. E, nesta crise hídrica, quando estamos vivendo a pior situação de chuvas na História, o setor está atuando para antecipar, de três a quatro meses, o funcionamento de parques elétricos que podem gerar 1GW no País", confirmou Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica).

Ela afirma que entre as medidas para antecipar estes parques, que estavam previstos anteriormente para entrar em operação até abril de 2022, há tanto questões burocráticas, como a obtenção de licenças, como físicas, com o aceleramento de obras. Gannoum conta que o tempo para a instalação de um aerogerador no Brasil, que era em média de dois dias, está sendo reduzido para 1,5 dias e até um dia, em alguns empreendimentos.

A presidente da ABEEólica afirma que a atual crise hídrica é totalmente diferente à vivida em 2001, época do apagão. Gannoum afirma que hoje em dia as hidrelétricas representam apenas cerca de 60% da capacidade instalada no País, contra cerca de 90% no ano 2000. A diversificação dá muito mais margem de manobra e, embora sejam consideradas mais poluentes, mesmo as termelétricas seguem fundamentais e devem crescer no futuro, por causa de sua facilidade de operação.

Manuela Kayath, presidente da MDC, que já produz 20% de todo o gás do Ceará a partir de um aterro sanitário na Grande Fortaleza, acredita que o atual cenário tende a turbinar investimentos que já estão em alta, principalmente no uso de bagaço de cana. Ela afirma que o setor já estava aquecido, porém que novos projetos que ainda estavam no papel tendem a ganhar velocidade diante da atual situação nacional: "O mercado energético brasileiro do século 20 era marcado pela geração hídrica, mas agora estamos em um momento de transição, com a criação de um parque de geração complementar, onde segmentos como eólica, solar e biomassa representam a maior parte do aumento de capacidade do sistema. O Brasil tem muitas potencialidades que permitem explorar vários projetos ao mesmo tempo."

Rodrigo Sauaia, presidente executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABsolar), afirma que o incentivo às fontes renováveis vai além da atual crise energética: "Em que pese estarmos vivendo a pior crise hídrica do País, há uma situação de mudanças climáticas. O uso da água vai ser analisado a partir de suas prioridades, como consumo humano e animal, deixando a geração elétrica em segundo plano", afirmou.

- ONS descarta novo racionamento

As medidas que estão sendo adotadas pelo governo federal e órgãos ligados ao setor elétrico vão garantir o abastecimento de energia neste ano, reafirmou o Operador Nacional do Sistema Elétrica (ONS), em comunicado publicado na última sexta-feira (4). A declaração vem após publicação de uma nota técnica em que o Operador reconhece que o País enfrenta a pior crise hidrológica desde 1930, com situação crítica nos principais reservatórios de usinas hidrelétricas, mas descarta a possibilidade de um racionamento.

No comunicado, o ONS ressalta as determinações para restringir o uso das águas para outras atividades nas bacias São Francisco e Paraná - como para turismo, pesca e manutenção do funcionamento de hidrovias, por exemplo. Em contrapartida, para manter o abastecimento de energia, o operador sugere o aumento do uso de termelétricas, garantia de combustíveis para essas usinas e a importação de energia da Argentina e Uruguai.

"Nos últimos sete anos os reservatórios das hidrelétricas receberam um volume de água inferior à média histórica. É neste contexto que todos os esforços estão sendo envidados, com transparência e informação à população, para que o País atravesse a crise hídrica sem problemas no fornecimento de energia, que como dito anteriormente, está garantido este ano", informa o órgão.

Para enfrentar a seca neste ano, o ONS sugere liberar mais vazão do reservatório de Furnas e Mascarenha de Moraes, que estão com níveis mais altos, poupar água nas demais hidrelétricas do Sudeste e Centro-Oeste do País, que apresentam níveis mais críticos, e acionar todas as termelétricas entre junho e novembro deste ano.

O plano traçado pelo ONS indica que se a operação for mantida sem as alterações propostas pelo ONS, haverá "perda do controle hidráulico de reservatórios da bacia do Rio Paraná" no segundo semestre. Isso significa que as usinas teriam de operar como se não tivessem reservatórios, a fio d'água, dependendo de chuvas para manter o funcionamento, arriscando inclusive paralisações.

O ONS afirma que as ações propostas consideram um cenário hipotético em que há risco de déficit de energia. Isso aconteceria caso as chuvas não sejam retomadas no fim de setembro e início de outubro, como normalmente acontece, e voltem a cair apenas em novembro - algo que pode não se concretizar. As ações a serem tomadas de forma preventiva visam justamente evitar essa ameaça.

"Sendo assim, diversas medidas foram aprovadas pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) e já estão em curso, o que faz com que esse cenário não se concretize e se garanta o fornecimento de energia e potência em 2021", diz o comunicado, ressaltando que a situação vem sendo monitorada e enfrentada desde outubro.



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