página principal

Comunicação

Clipping

Fonte: Marco Zero Conteúdo | 08 de maio de 2018

Nem toda bandeira é vermelha na luta pela moradia

A fumaça e a poeira dos escombros ainda pairavam no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo, quando as chamas das primeiras notícias falsas começaram a se espalhar. Os ventos das redes sociais ajudaram a espalhar o incêndio, mas foi a mídia tradicional que ateou o fogo das fake news, usando os mecanismos de manipulação de informação de sempre.

Inicialmente, sem qualquer preocupação em apurar quem seriam os responsáveis pelo desconhecido movimento que cobrava aluguéis dos sem teto, repórteres saíram à caça de Guilherme Boulos. Sob a justificativa dele ser líder do sem-teto, a imagem do líder nacional do MTST foi imediatamente associada à tragédia com a qual não tem vínculo algum.

Horas mais tarde, um colunista do portal Uol, por desinformação ou desonestidade, generalizou a questão ao extremo de comparar a luta social pela moradia às milícias do Rio de Janeiro. Em seguida, matérias e artigos responsabilizavam os moradores do edifício destruído pela tragédia que mudou suas vidas.

Bastaram 24 horas de apuração jornalística para identificar quem é quem no universo nacional da luta pela moradia tanto em São Paulo quanto em Pernambuco.

Em São Paulo, o ex-vereador paulistano e professor de Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), Nabil Georges Bonduki, é especialista na questão do déficit habitacional e conhece como poucos a dinâmica dos movimentos sociais e seu relacionamento com as instituições. Em entrevista por telefone, ele afirmou que qualquer gestor público precisa saber diferenciar os movimentos sérios e aqueles que transformam o problema em meio de vida.

Ele relata que, em São Paulo, o movimento começou nos anos 1980, com o Fórum dos Cortiços. “Ao longo desse período, virou bandeira de luta, mas também virou oportunidade de negócios, tanto por parte do crime organizado, que se infiltrou em vários cortiços, quanto por parte de estelionatários que controlam uma ocupação extorquindo dinheiro dos seus moradores”, conta.

Bonduki sugere que o grau de organização numa ocupação dá ideia do quanto é sério um movimento: “Nem toda ocupação tem motivação política, mas torna-se ato político porque serve como denúncia para a questão da habitação e do abandono de imóveis públicos. Um movimento sério politiza qualquer atividade numa ocupação, dividindo tarefas e responsabilidades coletivas. Esse negócio de lixo jogado no poço do elevador não existe em uma ocupação comandada por militantes comprometidos”.

O professor, que também é colunista do Uol, nunca tinha ouvido falar do LMD (Luta por Moradia Digna) ou do MLSM (Movimento de Luta Social por Moradia). Esses “movimentos” sequer faziam parte das 41 entidades que, divididos em três chapas rivais, participaram da última eleição do Conselho Municipal de Habitação, em maio de 2016. Também não eram conhecidos por nenhum dos ativistas sem teto ouvidos “em off” pela Marco Zero.

As autoridades têm a obrigação de identificar e avaliar o grau de risco existente em cada ocupação. É o que afirma Bonduki, explicando que “ocupações em antigos prédios residenciais ou hotéis tendem a apresentar risco menor, pois os movimentos organizados costumam fazer serviços de manutenção assim que entram nos imóveis”. Em edifícios comerciais, o risco é bem maior, pois são necessárias muitas improvisações para que venham a servir de moradia.
Os dois MTSTs pernambucanos

Em Pernambuco, o movimento mais presente e o único a fazer ocupações nos últimos anos é Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, o MTST liderado por Boulos. Segundo Rud Rafael, um dos seus coordenadores, o MTST se distingue dos demais movimentos por “atuar no território, a ocupação é uma forma de construção de referência nesse território, pensando a organização das famílias no lugar onde vivem e não apenas a luta por moradia. O objetivo é criar um instrumento de massas com base na organização da periferia”.

Em Pernambuco, também marcam presença o já citado MLB, influenciado pelo nanico Partido Comunista Revolucionário (PCR) que compõe a articulação nacional MNLM, que tem esboçado realizar ocupações n Grande Recife. E também tem o MTST-PE. Isso mesmo, outro MTST, instituição que, sob a liderança do pastor Marcos Cosmo, começou representando o movimento original no estado, mas por começar a cobrar mensalidades dos integrantes, acabou se afastando da articulação nacional. Para evitar confusão, o MTST liberou o uso parcial da sigla, desde que a bandeira sofresse pequenas modificações.
Em São Paulo, até o PSDB está na “luta”

Por ironia (ou maldade) do destino, em dezembro de 2017 o Largo do Paissandu foi cenário de um seminário para discutir a questão habitacional. As discussões aconteceram no auditório da Galeria Olido, a menos de 200 metros do edifício ocupado que desabou terça-feira, 1º de maio. Quem organizou o seminário foi a secretaria municipal de Habitação e o Movimento Popular, o MOP.

O MOP é um dos mais antigos movimentos pela moradia na Grande São Paulo, porém é uma iniciativa pessoal de um personagem messiânico, o teólogo e ativista dos direitos humanos Rosalvo Salgueiro. Militante do PSDB, Salgueiro defende que a luta pela moradia não pode “atropelar a cronologia do poder público, mas tem de ser feita em espírito de colaboração”. Na página oficial do MOP, o tucano declara ser seguidor da teologia da Libertação e fiel da Igreja Católica Apostólica Brasileira.

Ele não é o único filiado ao PSDB participando dos movimentos pela habitação e “moradia digna”. Ocupando um cargo comissionado no gabinete da liderança tucana na Câmara Municipal, João Bosco da Costa coordena a Associação de Defesa e Orientação ao Consumidor Contribuinte de São Paulo. Curiosamente, ele não junta seus esforços aos de Rosalvo e do MOP. Na última eleição para o Conselho Municipal de Habitação, os dois estavam em chapas diferentes. Rosalvo comandou uma chapa e Bosco aliou-se ao Movimento dos Sem Teto do Ipiranga, o MSTI.

Apesar da sigla, o MSTI não tem ligação com os movimentos de sem teto mais atuantes da capital paulistana: trata-se do movimento criado por Maksuel José da Costa, assessor do deputado federal Paulinho da Força, do partido Solidariedade. O MSTI é uma associação privada e sua atuação mais lembra a de um clube de serviços, promovendo shows, festas para crianças e festivais esportivos.

Ocupação Marielle Franco completa 30 dias de resistência e sonhos.

A Ocupação Marielle Franco nasceu na madrugada do dia 20 de março. Um mês de resistência marca a história de mulheres de luta, que sonham com a casa própria. A casa de tijolo. A laje que dará segurança e conforto para criar os filhos, cuidar da família.

Dezenas de pessoas convivem como família, em vãos divididos, uns já por papelão outros ainda com muros imaginários. As crianças, em número bem significativo, representam esperança e força para aquelas guerreiras. Além de garantir alegria ao ambiente abafado e pouco iluminado.

As refeições são coletivas, assim como todas as atividades do dia a dia familiar. Varrer, lavar, cozinhar, retirar entulhos tudo é dividido em escalas. Há organização. Há regras. Há hora para entrar e para sair.

Acima de tudo há esperança.

A Marco Zero conversou com 5 mulheres que não arredaram o pé do “Edifício Marielle” nenhuma vez nesses 30 dias. Assumindo o papel de coordenadoras dos andares, elas seguem fazendo justiça ao nome que inspirou a Ocupação.