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Fonte: Diário de Pernambuco | 15 de março de 2018

Rio x Recife: a importância do urbanismo no combate à violência

Após mais de três décadas voltei a morar, por um ano, na cidade onde cresci: o Rio de Janeiro. Talvez num dos piores momentos da sua história, com grandes engarrafamentos, pessoas dormindo pelas calçadas e alto índice de violência urbana. Até mesmo a simpatia e o característico bom humor do carioca parece ter arrefecido. A cidade sobrevive a uma ressaca moral pós Copa e Olimpíada, com a população assistindo estarrecida aos escândalos de corrupção fomentados por esses grandes eventos internacionais. Mas, mesmo mergulhado nessa crise toda, o Rio de Janeiro ainda apresenta um nível de urbanidade bem superior ao do Recife.

Ainda como estudante de arquitetura no Rio, ouvi várias referências positivas à cidade do Recife. Na escala arquitetônica se destacavam grandes mestres como Acácio Gil Borsoi e Delfim Amorim. Instituições públicas qualificadas como a Empresa de Urbanização – URB e a Fundação de Desenvolvimento da Região Metropolitana - Fidem, eram responsáveis pelo planejamento da cidade, municipal e metropolitano respectivamente. Na área acadêmica o Recife também era referência nacional, com o curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo e o Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano – MDU, ambos da Universidade Federal de Pernambuco.

Apesar de na época ainda não possuir um vínculo afetivo com o Recife - nasci aqui, mas minha família deixou a cidade quando eu tinha pouco mais de um ano - me sentia orgulhoso com as referências que ouvia em sala de aula. Planejava retornar à cidade depois de formado, para exercer a minha profissão num local de excelência. Queria aprender com os melhores profissionais da minha área. Assim, cabe a pergunta incômoda: onde foi que erramos?

Apesar do Recife ter reconhecida tradição em urbanismo, não é de hoje que esta prática profissional vem perdendo relevância na produção da nossa cidade. Estamos construindo uma cidade caótica, com verticalização desenfreada, superlotação dos transportes públicos e alagamentos cada vez mais frequentes. O excelente momento pelo qual a nossa economia passou recentemente, paradoxalmente, piorou ainda mais a qualidade de vida da população. A economia aquecida desacompanhada do planejamento urbano ocasionou uma verdadeira falência das infraestruturas urbanas.

A retomada de um planejamento urbano consistente se faz imprescindível para o resgate da cidade que já foi considerada exemplar para muitos arquitetos e urbanistas. Agora, talvez seja a hora de invertermos a situação e fazer do Rio o modelo urbanístico a ser seguido. Apesar dos seus bairros apresentarem variações de ordem sócio-espacial, de uma forma geral, eles são compactos, multifuncionais e possuem uma rede de espaço público qualificada. Essas características conferem aos bairros uma certa autonomia, que por serem conectados através de um bom sistema de mobilidade urbana, faz do Rio uma cidade policêntrica e integrada.

Mesmo vivendo uma crise seríssima de segurança pública e sob uma inusitada intervenção militar, o Rio de Janeiro continua possuindo espaços urbanos dinâmicos e cheios de vitalidade. A população local, mesmo assustada, não abre mão de ocupar a cidade, numa atitude corajosa de resistência à violência urbana. Os turistas (brasileiros e estrangeiros), por sua vez, insistem em visitar a cidade e continuam se apropriando dos espaços públicos, mesmo sendo eles presas fáceis dos agressores. Isso comprova o potencial do urbanismo de qualidade na construção de cidades resilientes, e quem sabe até exercendo um papel mais determinante no combate a violência do que a própria intervenção militar.