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A resistência do casario do bairro da Torre

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A resistência do casario do bairro da Torre

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A vila que atendia a dinâmica das atividades fabris tem imóveis dos séculos 17, 18, 19 e 20, que não são protegidos por lei e correm o risco de desaparecer

O bairro da Torre guarda em suas ruas estreitas de antiga vila operária um ativo de imóveis ricos em história do Recife. Mas a sua importância não caminha no mesmo passo da urgência de sua preservação. Tanto é que até hoje o patrimônio histórico, que vai desde as instalações das duas fábricas até o casario que atendia a dinâmica das atividades fabris, muitos exemplares dos séculos 17, 18, 19 e 20, não são protegidos, nem em nível municipal nem estadual. Apesar da memória que guarda em suas construções, o único bem da Torre classificado como Imóvel Especial de Preservação (IEP) é o casarão em estilo eclético nº 1.238, localizado na Praça Professor Barreto. Apesar do assédio típico das áreas nobres do Recife, muitos imóveis resistem à verticalização e pedem especial atenção do poder público para sua conservação.

Um dos remanescentes mais charmosos, datados da primeira metade do século 20, é um conjunto de 14 casas, dispostas de forma refratária, sendo sete com a frente para a Rua Benjamin Constant e as outras com a fachada voltada para a Rua José de Holanda. “Essas casas não faziam parte da vila operária. Eram casas específicas, destinadas ao aluguel. Uma pessoa comprava o terreno e construía um monte de casa para alugar e viver de renda. Isso explica porque são tão parecidas. Dentro do Recife, esse conjunto é, talvez, o último remanescente desse tipo de casa de aluguel, que com o tempo foram sendo descaracterizadas e destruídas”, afirma o arquiteto e urbanista Rodrigo Cantarelli. Hoje de propriedade da Santa Casa da Misericórdia, as casas continuam sendo alugadas, algumas para residência e outras para atividades comerciais.

Para além de suas características construtivas e arquitetônicas, segundo Cantarelli, esse casario está inserido num trecho do bairro que guarda imóveis do século 19, que tinham relação direta com a dinâmica do Cotonifício. Foi sua importância que levou integrantes do Movimento Direitos Urbanos e moradores da região a entrar com pedido de tombamento estadual, junto à Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), não apenas das instalações da antiga fábrica mas também de um conjunto de imóveis, que inclui o casario de 14 casas e outros exemplares dentro do mesmo polígono, totalizando mais de 20 imóveis com diferentes tipologias, mas todos vinculados às atividades fabris da Torre. “Esse patrimônio conta uma parte importante não só do bairro e do Recife, mas também do estado, já que a fábrica da Torre foi uma das maiores de Pernambuco”, justifica Cantarelli.

De acordo com a Prefeitura do Recife, além do casario da Benjamin Constant estar inserido numa poligonal de tombamento estadual provisório pela Fundarpe, não podendo sofrer alterações, existe um estudo sendo realizado pela Diretoria municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (DPPC/Secretaria de Planejamento Urbano) para transformar a área da fábrica da Torre e o polígono com os remanescentes fabris em Zona Especial de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural (ZEPH). Esse trecho do bairro “apresenta importante valor do ponto de vista cultural e para a memória da Torre e da cidade”, disse a prefeitura.

Para a diretora de arte Carol Silveira, que tem um ateliê em uma das casas da Benjamin Constant, a conservação desses imóveis ao longo dos anos tem sido uma resistência à verticalização. “Além da fachada, essas casas são lindas por dentro, com pisos em ladrilho hidráulico e lambri de madeira que resiste à ação do tempo. Eu moro na Torre desde criança e sempre fiquei de olho nessas casas. Há um ano e meio, tive a oportunidade de montar aqui o meu ateliê e estamos nesse trabalho de coletividade”, afirma Carol.

Campanha para preservar remanescentes

A recente campanha em torno dos remanescentes da Torre, na Zona Norte do Recife, não impediu que boa parte do casario do bairro e, portanto, da história de sua ocupação, tenha sido destruído para a verticalização de uma área nobre do Recife. Os exemplares que restaram se espremem entre os imensos edifícios. Para o arquiteto e urbanista Milton Botler, outros pontos do bairro também merecem atenção pelo seu valor simbólico, a área do antigo engenho, próximo à comunidade de Santa Luzia.

“É preciso preservar o que restou porque praticamente nenhum bem da Torre é protegido por lei. Até o casarão da antiga Catedral da Seresta virou um prédio. O que se tem ainda são as casas da vila operária já perto da fábrica”, defende Botler. Outro trecho histórico do bairro, que está em fase de tombamento, é onde funcionava o antigo Engenho da Torre, localizado na Praça Professor Barreto Campelo. “Tem uma torre de tijolos. A casa grande ficava onde hoje existe um colégio e a capela do engenho era a atual Igreja da Torre”, diz o arquiteto e urbanista Rodrigo Cantarelli.

Segundo a artesã Simone Lapenda, que tem um ateliê em um casario da Rua Benjamin Constant há sete anos, depois de muitas demolições e descaracterizações de imóveis, a população, espremida entre prédios, passou a fazer pressão pela preservação do bairro. “O único proprietário do casario é a Santa Casa de Misericórdia. Os inquilinos que hoje moram nesse casario é que têm ajudado a fazer um trabalho de ressignificação, conservando o interior e a fachada dos imóveis, porque temos receio de que essa história se perca”, relata a artesã.

FONTE: Diário de Pernambuco – Diário nos Bairros – Local

FOTO: Antes que suma

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